O economista André Lara Resende afirmou à BBC News Brasil que não conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem tem encontro marcado para apresentar sua proposta de criação de um novo órgão de coordenação das políticas monetária e fiscal. Segundo ele, a informação de que se reuniria com Lula foi "plantada" para prejudicar a ideia ou alguém que a defendeu.
"Eu não falei com o presidente Lula, não tenho nem tive contato com ele, assim como não tenho nada marcado [para apresentar a ideia a ele]. Essa notícia foi plantada obviamente para queimar a proposta ou [prejudicar] alguém que não eu", declarou o economista na entrevista.
Origem do debate
Lara Resende publicou o artigo em sua newsletter na plataforma Substack em meados de setembro. O texto voltou ao centro da discussão após a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) compartilhá-lo em redes sociais em 28 de outubro, classificando-o como "fundamental para enfrentar a ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira". A partir daí, parte do mercado passou a especular sobre um possível encontro com Lula e sobre a adoção da proposta.
O economista foi presidente do BNDES por oito meses em 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e diretor do Banco Central entre 1985 e 1986, no período de José Sarney (MDB). É também um dos formuladores do Plano Real.
O que a proposta prevê
O núcleo da ideia é a criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), que atuaria ao lado do Banco Central para formular metas de longo prazo para a política fiscal e para a taxa básica de juros, com o objetivo de coordenar expectativas.
Segundo Lara Resende, o conselho precisaria ser criado pelo Congresso Nacional, porque o Banco Central não tem autonomia institucional para criar conselhos próprios, apenas comitês consultivos. O Copom continuaria funcionando como hoje, e o BC manteria a autonomia para implementar as diretrizes de longo prazo. O colegiado teria, além do presidente do BC, o ministro da Fazenda, o secretário do Tesouro e mais dois ou três especialistas.
O economista afirma que a proposta parte do diagnóstico de que o déficit fiscal brasileiro decorre sobretudo do serviço da dívida pública, e não dos gastos do governo. Ele cita que o déficit primário, que exclui o serviço da dívida, foi um dos menores do mundo em 2025, segundo o Fundo Monetário Internacional, e que nunca superou 1,5% do PIB, ficando na faixa de 0,5% a 0,7%. Já o déficit total citado por ele foi de 0,48% do PIB em 2025, conforme o Tesouro Nacional.
Números indicativos e críticas
Parte do mercado e da oposição concentrou as críticas em um trecho do artigo que previa redução gradual da Selic ao longo de cerca de 12 meses para perto de 7,5% ao ano. Lara Resende diz que esses números são "meramente indicativos" e que a trajetória e o ritmo devem ser avaliados conforme as circunstâncias durante a implantação.
Ele também rebate comparações com a queda de juros promovida na Turquia de Recep Erdogan e com o ciclo de redução da Selic iniciado por Alexandre Tombini entre 2011 e 2013. Sobre Tombini, afirma que o então presidente do BC agiu corretamente e que o erro foi do Ministério da Fazenda, que, segundo ele, ampliou gastos quando a política fiscal deveria ter sido contida.
O economista americano John Cochrane, pesquisador da Hoover Institution, ligada à Universidade Stanford, qualificou a proposta como "sofisticada", mas disse que ela se apega mais a preceitos teóricos do que práticos, segundo a entrevista. Lara Resende reconhece que não há garantia de sucesso, mas sustenta que, bem implementada, a ideia tem alta probabilidade de dar certo.
Ele também afirma que a redução dos juros poderia provocar um pequeno repique inflacionário no curto prazo, efeito que considera pouco provável no Brasil porque o país não tem dívida externa, registra superávit comercial e possui cerca de US$ 370 bilhões em reservas.
Questionado sobre a autonomia do Banco Central, o economista diz que a instituição continuaria operacionalmente independente e que o conselho apenas fixaria diretrizes de longo prazo, com obrigação de explicações públicas em caso de descumprimento.

