O papa Leão XIV criticou neste sábado (7) a violência contra crianças durante uma visita a Casavalle, bairro pobre de Montevidéu, no Uruguai. A região é apontada como uma das mais violentas do país e registra tiroteios frequentes ligados ao tráfico de drogas, segundo a reportagem do G1.

O pontífice chegou de carro e percorreu as ruas do bairro sob forte esquema de segurança, com milhares de policiais. A visita ocorreu no segundo dia de uma viagem de 12 dias pela América do Sul e foi a primeira de um papa ao Uruguai desde 1988.

Pobreza e violência

"Não podemos ficar de braços cruzados quando sabemos que uma mãe não tem condições de alimentar os próprios filhos", disse o papa, conforme a reportagem. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), quatro em cada dez crianças uruguaias vivem na pobreza.

O pontífice também condenou os casos de violência que terminam em morte. Durante a passagem pelo bairro, abençoou 12 novas moradias populares construídas em Casavalle com financiamento da Igreja Católica.

A taxa de homicídios em Casavalle e nos bairros vizinhos chega a 41,7 por 100 mil habitantes, segundo dados oficiais citados pela reportagem. O índice é quatro vezes maior que a média nacional e está relacionado a confrontos entre grupos armados do narcotráfico.

De acordo com o texto, a violência aumentou nos últimos anos no Uruguai, que se tornou uma rota importante para o transporte de cocaína em direção ao norte. Tradicionalmente, o país era considerado um dos mais seguros e prósperos da América Latina.

Moradores de Casavalle relatam que os tiroteios fazem parte da rotina. "Aqui tudo é muito instável. O bairro passa de tranquilo a extremamente violento em questão de minutos", contou à AFP Claudia, enfermeira de 33 anos que não quis revelar o sobrenome por medo de represálias. Os moradores esperam que a visita de uma hora do papa ajude a melhorar a situação.

Inteligência artificial e família

Ainda neste sábado, Leão XIV alertou para os riscos de desumanização provocados pela inteligência artificial e pediu que escolas e universidades façam uso responsável da tecnologia, colocando as pessoas acima dos algoritmos.

À noite, o papa participou de uma vigília de oração no Estádio Centenário, em Montevidéu, diante de cerca de 60 mil pessoas. No encontro, incentivou os jovens a se casarem e formarem famílias e pediu que os casais tenham filhos mesmo diante das dificuldades. "Abram suas casas à vida, mesmo quando o mundo disser que um filho é um peso", disse.

Segundo a reportagem, a taxa de fecundidade na América Latina está em queda. Um estudo recente do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) aponta que o número médio de filhos por mulher passou de 5,8 em 1950 para 1,8 em 2024.

José Aguilar, venezuelano de 56 anos que vive no Uruguai há quatro anos, disse sentir um "renascimento da fé" no país e destacou que o papa abordou temas como suicídio, família e energia limpa. Após o discurso, a multidão repetiu em coro "Papa Leão, te queremos de montão!", sob aplausos e assobios.

Missa em Paysandú

Mais cedo, em Paysandú, o papa celebrou a primeira missa da viagem por Uruguai, Argentina e Peru. Na cerimônia, elogiou o mate, bebida tradicional do país, que, segundo ele, "nos ensina a compartilhar e a estar juntos". Leão XIV também pediu que os fiéis construam pontes e transmitam a alegria da fé. Milhares de pessoas acompanharam a celebração com cuias de mate e garrafas térmicas nas mãos. Paysandú fica a cerca de 350 quilômetros a noroeste de Montevidéu.

Conforme a reportagem, o Uruguai é o país mais laico da América Latina: apenas 35% da população se declara católica, segundo pesquisa de 2026 do Latinobarómetro. No domingo (8), o papa visitará a cidade uruguaia de Florida e depois seguirá para a Argentina, país de origem de seu antecessor, o papa Francisco.