A derrota dos republicanos na eleição de meio de mandato nos Estados Unidos, sob o presidente Donald Trump, trouxe ao centro do debate a relação histórica do país com Israel. O vice-presidente JD Vance afirmou que a relação com Israel foi um dos quatro principais motivos apontados por um consultor de confiança para a perda das maiorias na Câmara e no Senado para os democratas, segundo a Agência Brasil.
No dia da eleição, Trump anunciou o fim da ajuda militar a Israel, estimada em US$ 3,8 bilhões ao ano e prevista anteriormente para continuar até 2028. O anúncio, conforme a reportagem, surpreendeu aliados em Israel.
Mudança nas relações bilaterais
O professor Bruno Huberman, da PUC-SP, avalia que a suspensão do repasse resulta de uma mudança nas relações entre Washington e Tel Aviv. Ele lembra que os EUA fornecem ajuda militar a Israel desde o governo de John Kennedy (1961-1963) e que, no primeiro governo Trump (2016-2020), essa ajuda se expandiu de forma intensa.
O Conselho de Relações Exteriores, organização não governamental sediada nos EUA, afirma que Israel é há muito tempo o principal beneficiário da ajuda externa americana, incluindo assistência militar. A instituição calcula que, desde a fundação de Israel, em 1947, o país recebeu mais de US$ 300 bilhões até 2025, dos quais US$ 224 bilhões em assistência militar — mais que o dobro do segundo colocado, o Afeganistão, com US$ 113 bilhões.
Huberman destaca que o presidente democrata Joe Biden (2020-2024) manteve o nível de ajuda no contexto da guerra na Faixa de Gaza, classificada por alguns especialistas como genocídio. Esse apoio motivou manifestações contrárias em universidades americanas em 2024. "É uma ajuda sem qualquer contrapartida de Israel. O fato de Israel usar esses recursos para comprar armas fabricadas pelas corporações americanas foi muito criticado pela esquerda do Partido Democrata durante a eleição, embora, no poder, os democratas não fizeram nada muito diferente", afirmou.
Impacto eleitoral e críticas
As eleições americanas foram marcadas pela vitória do primeiro muçulmano para o Senado dos EUA, Abdul El-Sayed, pelo estado de Michigan, que fez campanha criticando os gastos do país com ajuda militar a Israel. "Tentam rotular você como alguém cheio de ódio se você acredita que crianças palestinas deveriam poder crescer na terra de seus antepassados sem serem assassinadas com o dinheiro dos nossos impostos", disse o senador eleito.
O professor Danny Zahreddine, da PUC Minas, avalia que o anúncio de Trump de suspender a ajuda militar foi uma tentativa de impedir a vitória de El-Sayed em Michigan. "A relação dos EUA com Israel traz hoje para o público americano um desconforto. Historicamente, o imaginário do mundo americano sempre foi muito favorável a essa relação. Isso começou a se desgastar com o genocídio em Gaza. Essa mudança começa em Gaza", explicou.
O diretor-executivo da Brazil Office Alliance, Paulo Abraão, argumentou à Agência Brasil que a Casa Branca reconheceu o custo político da aliança com Israel. "Eu não diria que isso significa necessariamente o enfraquecimento da aliança estratégica entre os dois países, mas sim uma mudança relevante nas condições políticas de sua sustentação", comentou. Para ele, o apoio a Israel deixou de ser um consenso bipartidário e passou a produzir divisões eleitorais, geracionais e ideológicas. "Acho que o mais interessante é que a eleição demonstrou que a política externa americana no Oriente Médio também pode ser cobrada nas urnas", concluiu.
Ainda durante a eleição, a cidade de Providence, em Rhode Island, aprovou com cerca de 75% dos votos uma medida que força a cidade a acabar com investimentos em "países estrangeiros que conduzem limpeza étnica, apartheid, ocupação militar ilegal ou genocídio". Apesar de não citar Israel, a iniciativa foi apresentada pela Coalizão Providence Pela Palestina, com apoio do prefeito democrata local, David Morales.
Em resposta ao comentário de Vance, o presidente de Israel, Isaac Herzog, reconheceu que existe um sentimento anti-Israel nos EUA. "Esses são sentimentos que estão no ar em nosso grande amigo e aliado", disse, acrescentando que Israel sempre "se esforçou ao máximo para ser bipartidário", informou o jornal The Times of Israel. O representante israelense na ONU, Danny Danon, rejeitou a análise de Vance que responsabilizou as relações com Israel pela derrota eleitoral. "É muito fácil culpar Israel por tudo, mas não é esse o caso", afirmou em entrevista à emissora i24News, acrescentando que é preciso "prestar atenção" às vozes críticas a Israel dentro dos EUA.

