O Brasil é o maior fornecedor de soja para a China, e a China é a principal compradora da soja brasileira. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, essa relação de interdependência pode ser afetada por três fatores: a concorrência com os Estados Unidos, o plano chinês de reduzir a dependência de importações e a possibilidade de queda na demanda chinesa pelo grão.
Acordo com os EUA
A China se comprometeu a comprar 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos por ano entre 2026 e 2028, além de pelo menos US$ 17 bilhões (R$ 86,1 bilhões) anuais em produtos agrícolas norte-americanos. O anúncio foi feito em maio, após Trump retornar de uma cúpula em Pequim, onde buscou amenizar o impacto da guerra comercial que iniciou no ano anterior com o tarifaço.
Em resposta às tarifas americanas, a China impôs imposto adicional de mais de 20% sobre uma série de produtos, incluindo a soja. Segundo a Associação de Soja dos EUA (ASA), a medida tornou o grão norte-americano consideravelmente mais caro que o da América Latina. As exportações de soja dos EUA para a China caíram 50% em um ano, o que também contribuiu para queda de 40% nos preços do produto.
Em setembro, EUA e China concordaram em reduzir tarifas sobre US$ 60 bilhões (cerca de R$ 311 bilhões) em mercadorias importadas um do outro. A soja ficou fora do acordo e manteve tarifa de 13%, estabelecida após negociações sobre o tarifaço. A soja brasileira é taxada em apenas 3%.
“Essa diferença de 10 pontos percentuais ajuda a preservar a competitividade brasileira, pelo menos no curto prazo, mesmo com a aproximação bilateral", afirma Patrícia Ellen, líder global de Natureza e Sistemas Alimentares da Systemiq.
A especialista explica que o volume de 25 milhões de toneladas está dentro dos patamares que a China já havia adquirido dos EUA em anos anteriores. Em 2016, os EUA forneceram 41% da soja comprada pela China, e o Brasil respondeu por 45%. Desde o primeiro governo Trump, iniciado em janeiro de 2017, disputas comerciais levaram os chineses a ampliar as compras de soja brasileira. Durante a disputa, os agricultores norte-americanos perderam US$ 27 bilhões (aproximadamente R$ 104 bilhões na cotação da época) em exportações, segundo a AFP, e o governo Trump concedeu US$ 23 bilhões em subsídios ao setor.
Risco de ampliação das compras americanas
Para Larissa Wachholz, especialista em China, é um sinal positivo que os dois países não tenham firmado novos acordos. Segundo ela, o Brasil tem capacidade para ampliar sua participação no fornecimento à China e mantém relação comercial baseada na confiança. O risco estaria na possibilidade de a China ampliar as compras de soja norte-americana além das 25 milhões de toneladas previstas.
“A relação da China com os Estados Unidos é a relação geopolítica mais importante que existe hoje. Sempre será uma carta na manga o fato de a China ser um mercado tão demandante. Então, ela pode sempre usar isso como instrumento de negociação", diz Wachholz.
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, considera difícil que os EUA voltem a exportar mais de 30 milhões de toneladas de soja para a China e avalia que a posição brasileira está consolidada. No ano anterior, o Brasil bateu recorde de exportações de soja para a China. Em 2026, já enviou quase 64 milhões de toneladas, segundo a Aprosoja.
Wachholz afirma que o crescimento das vendas beneficiou a economia. “Foi isso que criou renda nas cidades do interior do Brasil. Isso é ótimo, porque eleva o nível de desenvolvimento do país como um todo. A soja está compondo uma boa parte do PIB brasileiro", diz. As exportações também contribuem para que o Brasil mantenha superávit comercial com a China, o que é raro, segundo a especialista.
Plano chinês de autossuficiência
A China quer reduzir a dependência de produtos importados, prioridade do Plano Quinquenal, que estabelece metas econômicas e sociais para cinco anos. O plano atual prevê aumentar a produção chinesa de alimentos dos quais o Brasil é um dos principais fornecedores, como soja, milho e carne. Segundo relatório da Systemiq, investimentos e políticas públicas elevaram a produtividade da soja na China em 80% nos últimos 40 anos.
Para Patrícia Ellen, as metas chinesas representam risco maior para o Brasil do que a concorrência com os EUA. Projeções da consultoria indicam que as importações chinesas de soja podem cair cerca de 25% até 2030, provocadas por queda na demanda. A participação do farelo de soja, por exemplo, deve diminuir de 14,5% para menos de 10% até 2030.
“Basicamente, esses 23,5 milhões de toneladas de redução projetada equivalem a praticamente todas as exportações americanas de soja para a China em 2024 ou a um terço das exportações brasileiras destinadas ao país naquele ano", afirma Ellen.
A China pretende tornar a alimentação de bovinos e frangos mais eficiente, incentivar o consumo de outras fontes de proteína, como pescados, e aumentar o uso de aminoácidos sintéticos e proteínas produzidas por bactérias na alimentação animal, reduzindo a necessidade de farelo de soja.
Wachholz defende acompanhar a velocidade com que a China colocará essas medidas em prática. Beber, da Aprosoja, ressalta que a China nem sempre cumpre suas metas e tem ampliado o uso de outros grãos, como o sorgo, na alimentação animal. Ele afirma que a produção de aminoácidos sintéticos utiliza derivados de soja e milho, o que poderia abrir oportunidades. Para ele, porém, o maior risco está na baixa taxa de natalidade da China, que pode reduzir a população e a demanda por soja.
Saídas apontadas
Wachholz avalia que a dependência das compras chinesas representa risco, mas também vê oportunidades de parceria, com tecnologia em biotecnologia, sementes, insumos e maquinário. Ela defende ampliar os usos da soja, como biocombustíveis e óleo, e buscar acordos com outros mercados, especialmente na Ásia. Beber vê oportunidades na abertura de novos mercados, como a Índia, e defende incentivos fiscais para ampliar o consumo de biocombustíveis no Brasil.

