Um pesquisador afirmou nesta sexta-feira (6) que a Apple mantém uma lista não divulgada com dezenas de milhares de palavras e expressões, em diferentes idiomas, que o teclado do iOS não completa automaticamente nem permite inserir pela digitação por gestos. A informação foi publicada pelo G1.

Segundo Derik Kauffman, a lista não impede que usuários de iPhone escrevam esses termos em e-mails e mensagens. Na maioria dos casos, porém, as palavras incluídas não aparecem nas sugestões de preenchimento automático nem podem ser inseridas deslizando o dedo sobre as teclas.

De acordo com o pesquisador, a maior parte dos termos sinalizados é vulgar, ofensiva ou ligada a drogas, sexo ou violência. Algumas expressões têm conotação política, como "dictator Trump" e "sleepy Joe". A lista também varia conforme o idioma: em hindi, o teclado não permite digitar por gestos provocações dirigidas ao primeiro-ministro Narendra Modi e a seu adversário Rahul Gandhi; em francês, a expressão "immigration too high"; em hebraico, "occupied territories".

Kauffman disse ter encontrado a lista em setembro, após notar falhas na digitação por gestos com expressões como "bad boy" e "white man", mas não com "bad girl" ou "black man". Ele afirmou ter usado ferramentas de inteligência artificial da OpenAI e da Anthropic na investigação. Uma estimativa conservadora aponta cerca de 100 mil termos, sem contar caracteres chineses.

Procurada, a Apple não respondeu diretamente às descobertas, como o tamanho e a composição da lista e os motivos para sinalizar determinadas expressões políticas. A empresa afirmou que os usuários podem digitar palavras ou frases específicas e ignorar as sugestões automáticas, e que o teclado foi configurado para evitar sugestões consideradas inadequadas ou ofensivas.

O engenheiro Matt Suiche, da empresa de cibersegurança Tolmo, afirmou ter recuperado a mesma lista de forma independente e comparado as descobertas com dados internos da Apple, com resultados quase idênticos. Segundo ele, a lista permaneceu sem ser identificada durante anos e ajuda a entender como "a comunicação humana pode ter sido influenciada e filtrada durante anos dentro de aplicativos de mensagens".

Kauffman também apontou inconsistências na aplicação do recurso, citando como exemplo a possibilidade de digitar por gestos "read smut", mas não "read gay smut". Ele defende mais transparência. David Greene, consultor jurídico sênior da Electronic Frontier Foundation, classificou a lista como "assustadora" e questionou os critérios adotados, embora tenha afirmado que o recurso pode ser útil para evitar sugestões indesejadas.

O G1 relata que, no ano passado, a Apple chamou a atenção depois que usuários relataram que, ao ditar a palavra "racista" para seus iPhones, o termo "Trump" aparecia rapidamente na tela. Na ocasião, a empresa afirmou que se tratava de um erro corrigido.