O risco de recessão no Brasil em 2027 cresceu na avaliação de economistas e instituições financeiras, segundo reportagem do SBT News. O alerta se apoia na desaceleração da atividade, nos juros elevados e na piora das expectativas sobre as contas públicas. Ainda assim, a recessão não é o cenário base do mercado.

De acordo com o relatório Focus divulgado pelo Banco Central em 3 de novembro, a projeção mediana de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2027 passou de 1,31% para 1,20%. Ou seja, a expectativa continua sendo de expansão da economia, embora em ritmo mais fraco.

O que dizem os economistas

Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, o cenário piorou após a eleição, com deterioração das expectativas para inflação, câmbio e juros. Segundo ele, antes da mudança das expectativas havia espaço para o Banco Central continuar reduzindo a Selic, mas a reação dos mercados tornou esse movimento mais difícil e aumentou a possibilidade de a política monetária permanecer restritiva em 2027.

Vale afirma que o país já mostra sinais de perda de ritmo e que os consumidores chegam ao próximo ano com elevado comprometimento da renda e problemas de inadimplência. Na avaliação dele, a ausência de medidas fiscais concretas pode agravar a piora das expectativas e abrir espaço para uma recessão em 2027.

O economista-chefe da Genial Investimentos, José Camargo, também considera elevado o risco de contração econômica caso o governo mantenha a orientação fiscal do mandato anterior. Em sua avaliação, o risco maior seria uma contração mais forte e duradoura da produção, com consequências para o emprego e a renda.

Crédito e empresas

O presidente-executivo do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, afirmou durante teleconferência de resultados que as perspectivas econômicas para o próximo ano se deterioraram. Ele citou revisões das projeções para o PIB, a possibilidade de aumento do desemprego e a perspectiva de juros restritivos por um período mais prolongado.

Segundo Maluhy, as famílias já apresentam comprometimento elevado da renda, enquanto as empresas precisam refinanciar dívidas em condições mais caras. O executivo afirmou ainda que a incerteza econômica tem provocado redução da demanda por crédito, especialmente entre grandes companhias, que passaram a adiar investimentos e a buscar empréstimos com prazos mais curtos.

Marcus Codeceira, da Yards Asset, afirma que a gestora ainda avalia os desdobramentos do cenário político e econômico antes de estabelecer uma perspectiva definitiva sobre uma eventual recessão. Ele destaca que juros elevados encarecem o crédito e reduzem investimentos, consumo e expansão das empresas. Codeceira também aponta o aumento das recuperações judiciais, especialmente entre companhias mais endividadas, como fator de preocupação, com efeitos já observados no agronegócio e maior cautela dos credores.

Política fiscal decisiva

A evolução das contas públicas aparece como uma das principais variáveis para determinar se a economia terá apenas crescimento mais fraco ou contração mais intensa em 2027. Os economistas ouvidos apontam que a percepção dos investidores sobre a capacidade do governo de estabilizar a dívida pública influencia o câmbio e as taxas de juros de longo prazo.

Camargo afirma que a recuperação da credibilidade fiscal depende de medidas concretas, não apenas do anúncio de metas. Vale defende um ajuste fiscal mais amplo, mas ressalta as dificuldades políticas para implementar medidas que afetem despesas obrigatórias e benefícios.

O presidente tem defendido o crescimento econômico como elemento importante para o equilíbrio das contas públicas. Os economistas entrevistados, por outro lado, avaliam que a expansão da atividade, isoladamente, pode não ser suficiente para estabilizar a trajetória da dívida.

Segundo a reportagem, a trajetória do PIB no segundo semestre de 2026, as condições do crédito, a inflação e as primeiras medidas econômicas do novo mandato serão os principais indicadores para avaliar se a desaceleração poderá se transformar em recessão em 2027.