A vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as Midterms, foi marcada por lideranças jovens, de minorias étnicas ou religiosas e com discurso progressista, segundo reportagem da Agência Brasil. De acordo com a matéria, esse quadro renova a imagem do partido, que saiu desgastada da derrota para Donald Trump em 2024, quando a legenda era associada às elites econômicas e criticada por um suposto abandono das pautas dos trabalhadores norte-americanos.

Em entrevista à Agência Brasil, o doutor em ciência política Juliano Machado Pires atribuiu a avaliação ruim do Partido Democrata em 2024 à decepção com o governo de Barack Obama (2009-2017). Segundo ele, parte da população se sentiu traída porque, na crise dos bancos de 2008, Obama salvou os bancos, mas não salvou a hipoteca da população, criando a sensação de que os dois partidos davam no mesmo na proteção dos direitos econômicos das pessoas.

A professora de relações internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destacou que o pleito de 2026 elegeu um número expressivo de democratas de fora da elite da legenda. Segundo ela, são indivíduos com agenda mais progressista, em alguns casos até socialista, com ênfase em melhores condições de vida para a classe trabalhadora e saúde universal e gratuita.

Conforme a reportagem, o resultado fez o Partido Democrata eleger senadores e deputados em estados e distritos onde perdeu sucessivas eleições nos últimos anos, como o Texas. Com isso, tanto o Senado quanto a Câmara passaram a ser majoritariamente ocupados pela oposição a Donald Trump, do Partido Republicano.

Entre os nomes de destaque citados estão Keisha Lance Bottoms, apontada como a primeira mulher negra eleita governadora na história dos EUA, pelo estado da Geórgia; Deb Haaland, a primeira governadora indígena, pelo Novo México; e Chris Papas, o primeiro senador abertamente homossexual, eleito por New Hampshire. Em seu discurso, a governadora eleita pela Geórgia dedicou a vitória às pessoas sem acesso a serviços de saúde e educação devido ao alto custo de vida no país.

O professor de história da Universidade de Brown, James N. Green, explicou à Agência Brasil que os dirigentes partidários locais nos EUA têm bastante flexibilidade para definir a política do estado, o que contribuiu para a renovação. Ele avaliou que a diversidade do partido permitiu candidatos diversos capazes de atrair uma base da população, combinada com uma política que classificou como horrível do governo Trump, o que incentivou muitas pessoas a romper com ele e apoiar os democratas.

Outro nome de destaque foi James Talarico, vencedor ao Senado pelo Texas, que derrotou os republicanos pela primeira vez em quase 40 anos no estado, segundo a reportagem. O texto também cita a eleição da primeira governadora latina do Texas, Gina Hinojosa, após décadas de hegemonia republicana. Com 37 anos, Talarico articula um discurso religioso com a defesa dos mais necessitados e da justiça social, sendo filho de pastor e seminarista presbiteriano.

Em evento de campanha, Talarico afirmou que a única minoria que está destruindo os Estados Unidos é a dos bilionários, e que muitas das divisões no estado e no país são fabricadas por bilionários que querem que as pessoas lutem umas contra as outras em vez de lutarem contra eles. O texto menciona ainda a eleição do primeiro muçulmano para o Senado dos EUA, Abdul El-Sayed, por Michigan, que fez campanha criticando os gastos do país com ajuda militar a Israel.

Segundo a reportagem, no dia da eleição, Trump anunciou a suspensão da ajuda militar para Israel de US$ 4 bilhões, o que, para alguns analistas, foi visto como uma tentativa de reverter a tendência de votos em candidaturas que criticam o financiamento de Israel pelos EUA.