Grupos de brasileiros que vivem ou pretendem se mudar para o Paraguai, com quase 90 mil usuários no Facebook, têm servido como rede de apoio e também como espaço para relatos sobre a crise do banco Ueno, segundo acompanhamento feito pelo g1. Nas conversas, integrantes trocam dicas de moradia, sugestões de negócios e indicações de serviços, mas também alertam que a vida no país é mais difícil do que sugerem conteúdos divulgados na internet.
De acordo com o g1, uma das mensagens compartilhadas no WhatsApp compara a crise paraguaia à crise do Banco Master no Brasil. Outro participante comparou o episódio ao confisco da poupança durante o governo de Fernando Collor. Uma integrante afirmou que, no Paraguai, "todos foram punidos, porque o povo não deixou barato", em referência à reação da população.
O grupo também tem sido usado por brasileiros afetados pela crise bancária. A médica Katrye Lucena, de 27 anos, que se mudou para o Paraguai aos 17 para cursar Medicina, relatou ao g1 que teve o salário do mês retido e usa o espaço para conversar com outras pessoas na mesma situação.
Alertas sobre custo de vida e emprego
Segundo a reportagem, um engenheiro civil que afirma trabalhar no Paraguai há 17 anos publicou uma série de alertas sobre custos de vida, dificuldades para conseguir emprego e burocracia migratória. Outro usuário escreveu que "99% do que é vendido na internet eu chamo de 'KIT ILUSÃO'", em referência a conteúdos que, segundo ele, apresentam uma visão irrealista da mudança.
Em outra publicação, um brasileiro que trabalha em uma transportadora perguntou sobre oportunidades de emprego e moradia. Nos comentários, integrantes desaconselharam a mudança para quem busca emprego formal. Uma usuária perguntou sobre abrir um restaurante de comida brasileira e recebeu o alerta de que, sem comida paraguaia no cardápio, o negócio pode não dar certo.
Para quem já vive no país, os grupos ajudam em questões cotidianas. Marcelo Bernard, de 26 anos, que mora em Presidente Franco, no leste do Paraguai, contou ao g1 que recorre aos integrantes para tirar dúvidas sobre a rotina, incluindo recomendações de açougues. Ele relatou que passou mal, assim como a namorada, depois de consumir carne comprada em um estabelecimento que não conheciam.
Política e migração
A política brasileira também aparece nas conversas. Marcelo Bernard afirmou que percebeu aumento expressivo de novos integrantes após as eleições presidenciais de outubro de 2026, movimento que, segundo ele, chegou a atrapalhar as conversas. Ele disse não saber se os novos integrantes concretizaram os planos de mudança e afirmou: "Eu acho que foi tudo mais desespero só do pessoal que estava no Brasil".
Nas mensagens às quais o g1 teve acesso, integrantes fazem críticas ao presidente Lula, ao PT e a figuras do Judiciário. Também circulam vídeos com acusações sem comprovação apresentada nas mensagens, incluindo alegações de fraude nas eleições brasileiras de 2026. No grupo do Facebook acompanhado pelo g1, publicações políticas são menos frequentes do que anúncios de terrenos, casas e apartamentos.
Segundo a Direção Nacional de Migrações do Paraguai, entre janeiro e outubro de 2026, brasileiros receberam 34.794 autorizações de residência no país, o equivalente a 67% das autorizações concedidas a estrangeiros no período. O pesquisador Aníbal Orué Pozzo, professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), afirmou ao g1 que o Paraguai estruturou nos últimos 12 anos uma política para atrair investimentos e pessoas do Brasil.
Crise do Ueno
O Paraguai enfrenta uma crise política após o escândalo envolvendo a quebra do banco Ueno, que deixou clientes sem acesso aos próprios depósitos. O banco fechou as portas em 3 de novembro, depois que o Banco Central iniciou o processo de liquidação da instituição. A autoridade monetária identificou insuficiência de recursos para cobrir obrigações do banco, relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à instituição.
O Ueno tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social. O presidente Santiago Peña, que também é economista, foi acionista do grupo proprietário do Ueno até março do ano passado. Em 5 de novembro, em meio à pressão política, Peña anunciou que pretendia renunciar ao cargo. A Câmara dos Deputados, no entanto, aprovou a abertura do processo de impeachment contra ele, e o Senado deve retomar a análise do impeachment em 6 de novembro.

