A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), deve reduzir o espaço do presidente Donald Trump para aprovar medidas nas áreas de gastos públicos, impostos e regulação, segundo avaliação de economistas ouvidos pelo g1. Com a maioria conquistada na Câmara dos Representantes e no Senado, os democratas passam a ter maior poder para barrar propostas do governo republicano.

As chamadas "midterms" renovam todas as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 vagas do Senado. Os deputados têm mandato de dois anos e os senadores, de seis. Segundo a reportagem, o resultado confirmou as projeções de vitória democrata, mas com desempenho superior ao esperado no Senado. O BTG Pactual previa 239 cadeiras para os democratas na Câmara e 51 no Senado.

Leitura dos economistas

Para Andressa Durão, economista do ASA, a chamada "onda azul" poderia reduzir o espaço de Trump para aprovar medidas e ampliar a fiscalização sobre o governo. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, relaciona o desgaste do presidente à insatisfação dos eleitores com o custo de vida, especialmente com os preços dos combustíveis nos Estados Unidos. Ele cita que a gasolina está acima de US$ 4 por galão e o diesel, de US$ 6.

Sung avalia que a retomada de ao menos uma das Casas pelos democratas já seria suficiente para dificultar a agenda legislativa de Trump, mas o alcance desse bloqueio dependeria do resultado em cada Casa. Em avaliação feita antes da confirmação da vitória democrata nas duas Casas, ele já alertava para riscos de maior instabilidade nos mercados financeiros.

Canais de transmissão para o Brasil

De acordo com a reportagem, os efeitos das eleições americanas sobre o Brasil podem chegar principalmente por dois caminhos: os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA e a cotação do dólar. As decisões do Congresso sobre gastos e impostos influenciam as expectativas dos investidores sobre as contas públicas americanas.

Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, avalia que uma vitória republicana nas duas Casas daria a Trump mais espaço para avançar com cortes de impostos, desregulamentação e políticas comerciais mais duras. Se essas medidas ampliassem o déficit público, poderiam pressionar a inflação e os juros de longo prazo nos EUA.

Por outro lado, na avaliação de Praça, a vitória democrata pode limitar novas propostas de aumento dos gastos públicos e aliviar a pressão sobre os juros americanos. A oposição também passaria a ter mais poder para fiscalizar o governo e influenciar a aprovação de indicados para cargos importantes. Com menos espaço para medidas de estímulo à economia, a pressão sobre os juros americanos poderia diminuir, o que tornaria mercados emergentes mais atraentes e favoreceria a entrada de recursos no Brasil, o fortalecimento do real e a queda das taxas de juros futuras.

Esse efeito, porém, dependeria também do ambiente político nos EUA. Disputas em torno do orçamento e conflitos entre o governo e o Congresso poderiam gerar insegurança entre investidores e provocar novas oscilações nos mercados.

Relação Lula e Trump

A relação entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva é apontada na reportagem como mais um fator de incerteza para os investidores. Segundo o texto, após a vitória do petista no último domingo, especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que o mercado passou a considerar a possibilidade de uma relação mais difícil entre os dois presidentes, o que aumenta a preocupação com novos atritos políticos e econômicos, como os registrados com o tarifaço e a aplicação da Lei Magnitsky.

Para Praça, o resultado das midterms também pode influenciar a continuidade dessas medidas, dificultando novas ações comerciais de Trump e acelerando a reação do Legislativo a possíveis atritos com o Brasil. O controle democrata do Congresso, no entanto, não significa necessariamente o fim das tarifas adotadas por Trump, que ainda pode recorrer a diferentes dispositivos da legislação comercial americana, sujeitos a limites legais.

Conforme a reportagem, em 20 de fevereiro a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas impostas por Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), mas a decisão não alcançou as medidas fundamentadas nas Seções 232 e 301, que têm bases legais diferentes.

O texto acrescenta que o impacto das eleições americanas sobre o Brasil pode se somar a fatores internos na formação do preço do dólar. Depois das oscilações do período eleitoral brasileiro, a cotação da moeda voltou para a casa dos R$ 5,40. Segundo Sung, o movimento ocorre em um cenário de fortalecimento global do dólar, impulsionado pelas expectativas de alta dos juros nos EUA, o que tem feito moedas de diversos países emergentes perderem valor em relação à moeda americana — mas o real seguiu caminho diferente.