O presidente de Israel, Isaac Herzog, escolheu Gadi Eisenkot, principal rival do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, para tentar formar um novo governo depois de uma eleição que não deu a nenhum dos dois blocos maioria no Knesset, o parlamento israelense. A informação foi divulgada pelo gabinete presidencial.
Segundo o comunicado, Herzog consultou todos os partidos ao longo da semana e decidiu conceder a Eisenkot a primeira oportunidade de formar governo. A decisão foi comunicada tanto a Eisenkot quanto a Netanyahu.
Nas consultas com as delegações da nova Knesset, Eisenkot recebeu 67 recomendações para o cargo de primeiro-ministro, enquanto Netanyahu obteve 46, de acordo com o gabinete do presidente. O presidente tem ampla liberdade para escolher quem considera ter a melhor chance de formar uma coalizão e não é obrigado a indicar o líder do partido com o maior número de cadeiras.
Eisenkot terá 28 dias para tentar montar uma nova administração, prazo que pode ser prorrogado por 14 dias.
Trajetória e ruptura com a oposição
Ex-chefe do Exército israelense, Eisenkot entrou formalmente na política em 2022, quando se tornou membro do Knesset pelo partido Unidade Nacional. Depois, deixou a legenda alegando diferenças ideológicas. No ano passado, rompeu com as principais figuras da oposição para formar seu próprio partido centrista, o Yashar.
Segundo a reportagem, a decisão de concorrer contra Netanyahu também foi motivada por uma tragédia pessoal: seu filho, o sargento-mestre Gal Eisenkot, o caçula de cinco filhos, foi morto em uma explosão no norte de Gaza em dezembro de 2023, durante uma missão para recuperar os restos mortais de dois reféns capturados pelo Hamas em 7 de outubro.
Eisenkot disse à rádio pública israelense Kan Reshet Bet, em abril, que ainda não abriu as caixas com os pertences do filho. "Ainda não os abri. Continuo adiando", afirmou o homem de 66 anos. Ao The Times of Israel, declarou: "Não posso voltar atrás. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para ser digno do alto preço que Gal pagou."
Gabinete de guerra e críticas a Netanyahu
Após os ataques de 7 de outubro de 2023, Eisenkot integrou o gabinete de guerra de Netanyahu ao lado de outras figuras da oposição. Renunciou em junho de 2024 e acusou o primeiro-ministro de não ter agido com mais rapidez para garantir a libertação dos reféns. "Mulheres e crianças foram sequestradas sob sua responsabilidade, e ele deliberadamente não fez o necessário para resgatá-las", disse ao The Times of Israel. Netanyahu rejeitou repetidamente a alegação.
O primeiro-ministro afirma que Eisenkot se opôs a importantes movimentos militares em Gaza durante o período em que fez parte do gabinete de guerra e que a abordagem do rival não teria enfraquecido o Hamas. Em entrevista ao site Ynet, Eisenkot rejeitou a acusação e pediu que Netanyahu divulgue ao público as atas das discussões e votações do gabinete de guerra.
Poucos dias antes da eleição, Eisenkot prometeu acabar com o governo do Hamas em 18 meses, caso fosse eleito.
Prioridades de campanha
Em seu programa de 10 pontos, Eisenkot prometeu lançar um plano emergencial para lidar com a saída de israelenses altamente qualificados do país e estimular a chegada de novos imigrantes. Também defendeu acabar com as regras de isenção do serviço militar para comunidades judaicas ultraortodoxas e árabes israelenses, propondo uma lei de serviço universal.
Uma de suas promessas é lançar uma investigação sobre os ataques de 7 de outubro, que analisaria possíveis falhas do governo israelense. Netanyahu rejeitou sistematicamente uma investigação estatal liderada pela Suprema Corte, argumentando que o Judiciário seria parcial contra ele.
Sobre a Cisjordânia, Eisenkot declarou que pretende "redefinir" as relações de Israel com a Autoridade Palestina. "A Autoridade Palestina precisa ter permissão para governar os 2,8 milhões de palestinos [na Cisjordânia ocupada]. Eu não quero governá-los", disse ao The Times of Israel em outubro. Ele não expressou apoio à solução de dois Estados e afirmou que quem ainda acredita nessa possibilidade está "iludida", segundo relatos da mídia israelense.
Reações e análise
O jornalista Mehdi Hasan escreveu no The Guardian que "Eisenkot não é Netanyahu", mas permitiria "as mesmas políticas de expansão e destruição tanto na Cisjordânia quanto em Gaza". Anshel Pfeffer, correspondente da The Economist em Israel, afirmou à BBC que Eisenkot "não é pacifista", mas tem "a imagem de um homem sério" e não fez "promessas absurdas" até agora na campanha.
O professor Yossi Mekelberg, especialista israelense em relações internacionais da Chatham House, disse à BBC que uma vitória de Eisenkot ajudaria a restabelecer as relações entre Israel e a comunidade internacional, mas alertou contra expectativas de uma "mudança repentina". "Não acredito que nenhum dos partidos da oposição, incluindo o de Eisenkot, ofereça uma alternativa clara [a Netanyahu]", afirmou.

