As ruínas carbonizadas do Kehlsteinhaus, conhecido como Ninho da Águia, no alto dos Alpes alemães, estão no centro de um debate sobre como a Alemanha deve lidar com seu passado nazista, segundo reportagem da BBC. O local, construído pelos nazistas em 1938 e frequentado por Adolf Hitler e outros integrantes de alta patente do regime, foi devastado por um incêndio na noite de 23 de outubro, possivelmente criminoso.
Antes do incêndio, o Ninho da Águia era uma atração turística popular, pertencente ao Estado da Baviera e operado como restaurante há muitos anos. Os visitantes subiam de ônibus e usavam o elevador original até a casa, a 1.834 metros de altitude, para apreciar a vista dos Alpes acima de Berchtesgaden. Dezenas de milhares de turistas visitavam a região a cada temporada, o que representava uma importante fonte de renda para a comunidade, de acordo com a reportagem.
Debate sobre o futuro do local
Parte dos especialistas defende que os escombros sejam removidos e a montanha volte ao estado natural. O professor Sir Richard J. Evans, da Universidade de Cambridge, afirmou que o local já foi destruído e que deveriam simplesmente retirar os escombros. Ele citou como precedente o bunker de Berlim onde Hitler se matou, preenchido com concreto e coberto por um parque infantil.
Autoridades da Baviera têm posição diferente. O ministro do Interior do Estado, Joachim Herrmann, e o ministro das Artes, Markus Blume manifestaram-se a favor da reconstrução. "Não podemos deixar uma ruína ali de pé", disse Herrmann. Blume afirmou, em rádio bávara, que a obra "não deve e não pode custar nada ao contribuinte". Herrmann disse que buscarão uma solução sensata em consulta com historiadores.
Sven Keller, chefe do Centro de Documentação de Obersalzberg, argumenta que deixar o local em ruínas poderia encorajar peregrinos neonazistas. Ele lembrou que o Berghof, residência de verão de Hitler demolida na década de 1950, não foi apagado da memória coletiva. Keller também não acredita em uma reconstrução idêntica.
A professora Isabel Heinemann, da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, defende que uma reconstrução completa estaria "fora de questão", por reinstalar uma arquitetura fortemente ideologizada. Ela propõe documentar o estado deixado pelo incêndio e reconstruir partes com design moderno, deixando claras as camadas de tempo do edifício.
Investigação e contexto
A polícia afirmou que o Ninho da Águia foi em grande parte destruído, mas o Centro de Documentação de Obersalzberg, inaugurado na década de 1990 nas proximidades, saiu ileso. Um homem de 33 anos com histórico de doença mental foi detido em hospital psiquiátrico de segurança máxima sob suspeita de incêndio criminoso. As autoridades não comentaram sobre possível motivo.
A reportagem situa o debate no contexto do avanço da extrema-direita na Alemanha e na Áustria. Cita a polêmica em uma cidade da Saxônia, onde vereadores do AfD e da CDU decidiram proibir memoriais conhecidos como "pedras de tropeço", e a inauguração de uma delegacia na casa onde Hitler nasceu, em Braunau am Inn, na Áustria.

