A derrota do presidente Donald Trump nas eleições legislativas dos Estados Unidos, que retirou dos republicanos a maioria na Câmara e no Senado, pode reduzir o ímpeto da política de intervenções da Casa Branca na América Latina e abrir espaço para um acordo com o Brasil no caso das tarifas comerciais. A avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil.
Limites impostos pelo Congresso
A professora de Relações Internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirmou que um Congresso de maioria democrata deve impor limites a Trump, entre eles na autorização de gastos para ações no exterior e na abertura de investigações contra membros do Executivo.
Segundo ela, o efeito tende a ser sentido sobretudo na área de defesa. "Eu imagino que o Congresso tende a sustar os gastos desse setor. Na América Latina, isso tende a ser percebido, inclusive, dentro do Escudo das Américas, com talvez menos recursos e menos ênfase a essa política. Portanto, pode vir a representar um freio para interromper essas políticas intervencionistas", declarou.
Escudo das Américas
Conforme a reportagem, o Escudo das Américas foi criado sob a justificativa de combater cartéis de drogas, mas tem sido apontado como instrumento de interferência dos EUA na região. Na Bolívia, a iniciativa foi usada para prender o procurador-geral do país, Roger Mariaca, acusado de colaboração com o narcotráfico. A prisão levantou suspeitas porque ele investigava o operador digital Fernando Cerimedo, ligado ao movimento de Trump nos EUA e que atuou como assessor dos presidentes da Argentina, Javier Milei, e da Bolívia, Rodrigo Paz.
A política externa de Trump, ainda de acordo com o texto, vem defendendo a "proeminência" de Washington na região, incluindo medidas para bloquear a influência econômica da China em países latino-americanos e caribenhos. A reportagem cita também a invasão da Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026, e um posterior acordo petroleiro com Caracas que reservou 21% do petróleo do país a uma empresa ligada ao Pentágono, com parte do óleo a ser vendida pelo preço de custo.
Tarifas e acordo com o Brasil
O tarifaço aplicado pelo governo Trump contra o Brasil vem sendo interpretado pelo governo brasileiro como interferência política voltada às eleições de outubro, segundo a reportagem. O doutor em Ciência Política Juliano Machado Pires avalia que a derrota eleitoral desta terça-feira (3) deve funcionar como incentivo para um acordo com o Brasil.
"Se eles aprenderam algo com a derrota, é que a economia precisa melhorar. Comprar briga com o Brasil neste momento não faz o menor sentido", disse.
Juliano acrescentou que o secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio, responsável pela política externa do governo Trump, deve ficar mais ocupado dando explicações ao Congresso com maioria democrata. "Eles precisam de uma série de acordos que eles têm interesse no Brasil, em várias áreas, como nas tarifas, terras raras e data centers. Se eles forem racionais, é o momento de fazer as pazes com o governo brasileiro", afirmou.
O especialista não descarta, porém, a possibilidade de o governo Trump buscar criar "factóides" no exterior para desviar a atenção de problemas internos.

