O Paraguai enfrenta uma crise política que ameaça afastar o presidente Santiago Peña do cargo, segundo reportagem do G1. O episódio começou com a liquidação do banco digital ueno pelo Banco Central paraguaio e chegou ao Congresso, onde a oposição protocolou pedido de impeachment contra o presidente e o vice-presidente Pedro Alliana.

Liquidação do ueno

Na terça-feira (3), o Banco Central do Paraguai liquidou o ueno após identificar insuficiência de recursos para cobrir as obrigações da instituição. A decisão foi tomada depois que foram detectados problemas em empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao banco.

Segundo o G1, a instituição tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social. Com a medida, o banco fechou as portas.

Na quarta-feira (4), relatos de falhas nos aplicativos de outras instituições financeiras circularam no país e aumentaram a preocupação dos clientes. A Associação de Bancos do Paraguai informou que as instituições trabalhavam para atender ao grande volume de pessoas que tentavam transferir contas do ueno e afirmou que o sistema bancário seguia operando normalmente.

Pedido de impeachment

A crise bancária chegou ao Congresso na quinta-feira (5). Deputados da oposição apresentaram pedido de impeachment contra Peña e Alliana. A acusação apontou possíveis conflitos de interesse, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. Os parlamentares também acusaram o Banco Central de encobrir irregularidades.

Conforme o G1, Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do ueno, até março de 2025. A oposição sustenta que a relação do presidente com o grupo representa conflito de interesses.

Ainda na quinta-feira, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade, com 78 votos, a abertura do processo de impeachment contra Peña. O pedido contra Alliana foi rejeitado. A decisão abriu caminho para que o vice-presidente assuma a Presidência caso Peña deixe o cargo.

Renúncia não aceita

Horas depois da votação na Câmara, Peña apresentou carta de renúncia em vídeo publicado nas redes sociais. Ele pediu desculpas aos clientes prejudicados pela crise bancária e afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas. A renúncia ainda precisava ser analisada pelo Congresso.

O Congresso iniciou a análise do pedido de renúncia na tarde de quinta-feira, em sessão marcada por longo debate entre governistas e oposicionistas. A oposição defendeu que a renúncia fosse rejeitada e que o impeachment tivesse continuidade, argumentando que, se deixar voluntariamente a Presidência, Peña poderá assumir uma vaga de senador vitalício, com imunidade parlamentar. Já os governistas sustentaram que aceitar a renúncia seria a maneira mais rápida de encerrar a crise e permitir a transferência de poder ao vice-presidente.

Segundo o G1, ao perceberem que não teriam votos suficientes para aprovar a saída do presidente, parlamentares do Partido Colorado, legenda de Peña, deixaram o plenário. A movimentação derrubou o quórum necessário para a continuidade da sessão. A votação foi suspensa e a renúncia não foi aceita, de modo que Peña permaneceu no cargo.

À noite, o Senado fez nova sessão para iniciar o debate sobre o impeachment. O processo deve continuar na sexta-feira (6). Peña afirmou, em carta publicada na noite de quinta-feira, que vai comparecer para apresentar a própria defesa no processo. O Senado é responsável pelo julgamento político do presidente, e a decisão dos parlamentares poderá determinar se ele será afastado definitivamente do cargo.