O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5), em meio a uma crise política e econômica. Com a saída, ele passa a ocupar o cargo de senador vitalício, posição prevista no Artigo 189 da Constituição paraguaia, segundo a qual ex-presidentes eleitos democraticamente — desde que não tenham sido submetidos a julgamento político e considerados culpados — tornam-se senadores sem direito a voto.
O senador vitalício pode participar das sessões e comissões, mas não vota e não conta para o quórum. A posição também mantém o foro privilegiado do ex-presidente.
Impeachment em curso
Mais cedo, o Congresso paraguaio havia dado os primeiros passos para votar um impeachment contra Peña e seu vice, Pedro Alliana. Caso o processo avance e seja aprovado, Peña perde o direito ao cargo de senador vitalício e, consequentemente, à proteção do foro privilegiado.
Nesta manhã, o Congresso iniciou uma sessão extraordinária para debater o pedido de impeachment, e todas as bancadas da Câmara dos Deputados anunciaram voto a favor do processo. Aliados de Peña retiraram o apoio ao presidente e passaram a pedir sua renúncia, além de defender o impeachment.
A iniciativa ganhou força após Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado — sigla de Peña —, retirar o apoio ao governo. Cartes é considerado mentor de Peña. O presidente do Congresso, Basilio Nuñez, também do Partido Colorado, havia retirado apoio.
Crise bancária
Peña era alvo de críticas por causa de uma crise bancária iniciada após o banco digital Ueno fechar as portas e deixar milhares de clientes sem acesso ao próprio dinheiro. O presidente foi acionista do grupo que controla a instituição.
Em vídeo, Peña se desculpou com a população afetada pela crise bancária e afirmou que decidiu renunciar "pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas".
A oposição acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, entre outros pontos. A acusação também aponta que o Banco Central paraguaio teria encoberto irregularidades. O pedido foi apresentado por 35 deputados, que solicitaram ao presidente da Câmara a convocação da sessão extraordinária.
Peña foi acionista do grupo proprietário do Ueno até março do ano passado. O banco tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
O Ueno, pertencente ao Grupo Vázquez, fechou as portas na terça-feira (3), depois que o Banco Central iniciou sua liquidação. A autoridade monetária identificou insuficiência de recursos para cobrir as obrigações do banco, relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à instituição.
Em publicação nas redes sociais, o presidente paraguaio afirmou que os responsáveis pelas irregularidades responderão à Justiça, sem exceções. A declaração foi feita pouco antes de ele promulgar uma lei que permitirá aos clientes do Ueno recuperar o dinheiro mais rapidamente.
Executivos do Ueno se entregaram às autoridades após mandados de prisão emitidos pela Procuradoria, que também acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça ordenou o bloqueio dos bens dos acusados.
Na quarta-feira, circularam relatos de falhas em aplicativos de outros bancos, o que aumentou a preocupação com o sistema financeiro do país. A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições trabalhavam para atender ao grande volume de clientes que transferiam suas contas do Ueno e ressaltou que o sistema bancário continuava "operando normalmente".
Economista conservador, Peña assumiu o governo em 2023, com mandato previsto até 2028. Seu vice, Pedro Alliana, assume o poder, mas também é alvo do processo de impeachment.

