O brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet, 40 anos, eleito deputado estadual na Flórida nas eleições de terça-feira (3), criticou em entrevista à BBC News Brasil o abrigo dado pelo governo americano ao senador Flávio Bolsonaro (PL), que segundo a reportagem está nos Estados Unidos desde 28 de outubro.
Questionado sobre a articulação de políticos e apoiadores da direita brasileira a partir da Flórida, o deputado eleito pelo Partido Democrata afirmou que o Brasil é um país soberano e que a justiça brasileira deve ser respeitada. Ele disse não ver sentido em aceitar nos EUA um político que descreveu como fugido do Brasil e defendeu que o processo em curso no país continue.
Sousa-Lazaballet também afirmou que os Estados Unidos não deveriam interferir na questão brasileira, enquanto, na sua avaliação, o país deporta trabalhadoras domésticas sem condenação criminal.
Vitória e trajetória
Segundo a reportagem, ele venceu a disputa pelo Distrito 42, na região metropolitana de Orlando, com 49.752 votos, o equivalente a 62,41% dos votos válidos para a cadeira. Será o primeiro brasileiro a integrar o legislativo estadual da Flórida, em um estado de maioria republicana, e integra um grupo de sete brasileiros, todos democratas, eleitos deputados estaduais em três estados americanos.
Filho de uma empregada doméstica cearense, saiu do Brasil aos 14 anos e viveu mais de uma década sem documentos nos EUA. Cursou Relações Internacionais no Miami Dade College e obteve a cidadania americana em 2021, condição necessária para disputar cargos eletivos no país. Antes disso, participou de uma marcha de Miami a Washington em 2010 pela legalização de imigrantes levados aos EUA ainda crianças e teve permissão para trabalhar aos 26 anos, enquadrado no programa DACA.
Críticas ao ICE e à lei estadual
Na entrevista, ele criticou a atuação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Afirmou que a Flórida é o estado que mais deporta pessoas no país, o que atribuiu a uma lei estadual aprovada em 2025 que, segundo ele, praticamente obriga polícias e governos municipais a colaborar com o órgão federal.
Ele também disse que escolas públicas do condado de Orange perderam 5 mil alunos imigrantes ou filhos de imigrantes, por deportações ou por medo das famílias. Segundo o deputado eleito, a ausência de mão de obra imigrante afeta a reconstrução de casas após furacões.
Agenda para a Assembleia
Sousa-Lazaballet disse que levará a Tallahassee uma agenda chamada Prosperando Juntos, com cinco frentes: moradia acessível, educação pública, saúde, meio ambiente e direitos civis. Na moradia, promete defender inquilinos e enfrentar seguradoras de imóveis; no clima, promete atuar por mais investimento em infraestrutura contra enchentes causadas por furacões.
Ele, que segundo a reportagem será o primeiro imigrante que se declara gay a ocupar o cargo, disse que vai lutar pelos direitos de mulheres, pessoas negras e da comunidade LGBT+.
Relação Brasil-EUA e referência política
O deputado eleito afirmou que brasileiros em cargos públicos nos EUA podem ser uma ponte econômica, social e cultural entre os dois países, citando o fluxo comercial entre o Brasil e a Flórida. Disse que gostaria de trabalhar diretamente com o governo brasileiro.
Sobre referências políticas, citou a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), elogiando a forma como ela combina pauta de representação com foco na classe trabalhadora.
Questionado sobre o eleitorado brasileiro na Flórida, que segundo dados do TSE citados na entrevista é majoritariamente identificado com a direita, disse que trabalha com quem quer trabalhar com ele e que a comunidade brasileira o apoiou, mesmo sem concordância total em todas as pautas.

