A liquidação do Ueno Bank, no Paraguai, desencadeou uma crise política que resultou na renúncia do presidente do Banco Central do país e no impeachment e na prisão domiciliar do agora ex-presidente Santiago Peña. O caso levou especialistas a comparar a situação paraguaia com a do Banco Master no Brasil, segundo reportagem da BBC News Brasil.

Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. O então presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo Spalding, também havia comandado o Ueno antes de assumir o cargo público.

Semelhanças apontadas por especialistas

Thiago Amâncio, diretor associado da equipe de riscos geopolíticos da consultoria Control Risks, afirma que a semelhança entre os casos é impressionante. Segundo ele, nos dois houve exposição relevante de recursos públicos, inclusive da previdência, crescimento rápido apoiado em ativos frágeis e relações próximas com o mundo político.

No Paraguai, o Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, entre eles fundos do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões. No Brasil, regimes próprios de previdência de Estados e municípios investiram cerca de R$ 1,8 bilhão em títulos emitidos pelo Master, segundo dados do Ministério da Previdência Social.

Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da agência de risco Austin Ratings, aponta ainda uma quarta semelhança: as relações próximas reveladas entre instituições financeiras privadas e os bancos centrais dos dois países, responsáveis por fiscalizar o sistema bancário. Ele lembra que o Master cooptou diretores do Banco Central para atuarem em favor do banco. No caso do Ueno, a indicação de Carvallo para o Banco Central paraguaio levanta suspeitas de que a autoridade monetária tenha sido leniente na fiscalização.

Diferenças de escala e de vínculo político

Apesar das semelhanças, o peso de cada instituição em seu sistema financeiro é uma diferença importante. O Ueno acumulava cerca de US$ 3,75 bilhões em ativos e concentrava aproximadamente 9,1% dos depósitos do sistema bancário paraguaio. O Master tinha R$ 86,8 bilhões em ativos, mas representava cerca de 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro.

Amâncio destaca que a diferença fundamental é a dimensão do Ueno no sistema paraguaio, já que quase metade da população tem conta no banco. Segundo dados da própria instituição, o Ueno tinha 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% da população adulta do país.

Alexandre Jorge Chaia, professor de gestão de riscos financeiros no Insper, observa que as estratégias dos bancos para conquistar clientes foram diferentes: o Ueno apostou na abertura digital de contas, em descontos e na devolução de parte do valor das compras, enquanto o Master atraiu investidores com CDBs que ofereciam remuneração muito acima da média do mercado.

Com a decisão do Banco Central paraguaio de iniciar o processo de resolução da instituição, em 3 de novembro, os depósitos e as operações do banco foram congelados. Clientes ficaram sem acesso às contas, aos cartões e ao dinheiro que mantinham na instituição, o que provocou filas em agências e protestos nas ruas.

Já o Master chegou ao grande público principalmente por meio do investimento em CDBs. Por esse motivo, segundo Santacreu, sua liquidação nunca ofereceu risco ao sistema bancário brasileiro e penalizou principalmente o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que precisou desembolsar mais de R$ 40 bilhões para ressarcir os clientes lesados.

Por que o caso Ueno derrubou Peña

Amâncio observa que uma diferença fundamental é a proximidade do Ueno com o presidente especificamente, não só com membros do alto escalão da política, já que Peña foi acionista do grupo controlador do Ueno. No Brasil, as relações políticas do Master são importantes e amplas, mas mais difusas e envolvem outras autoridades, além do fato de não ter havido uma conexão formal entre o presidente Lula e o banco.

Junior Ivan Bourscheid, professor de Ciência Política da Unila, observa que Peña enfrentava desgaste dentro de seu partido, o Colorado, antes da crise bancária. A gota d'água, no entanto, foi a perda de apoio de Horacio Cartes, a figura política mais poderosa do Paraguai, que controla a principal facção do Partido Colorado e foi o principal padrinho político de Peña.

Amâncio considera que o presidente foi sacrificado por Cartes para tentar evitar que o escândalo contaminasse o partido antes da eleição de 2028.

No Brasil, Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, foi preso preventivamente em novembro de 2025. Após ser solto onze dias depois, voltou a ser detido em março de 2026, no âmbito das investigações sobre suspeitas de fraude financeira. A prisão ocorreu após a tentativa de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB) ter sido barrada pelo Banco Central.

No Paraguai, o juiz responsável pelo caso Ueno determinou a prisão preventiva de seis ex-dirigentes e executivos do banco, entre eles Juan Manuel Gustale, ex-presidente da instituição, e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador do Grupo Vázquez. Outras duas ex-diretoras receberam prisão domiciliar. Os investigados respondem a acusações que incluem abuso de confiança, tentativa de fraude e conduta indevida em situação de crise, que ainda serão examinadas pela Justiça.