Uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para reduzir a taxa básica de juros no curto prazo gerou apreensão entre operadores do mercado financeiro no fim de semana, segundo o SBT News. O debate ocorre às vésperas da reunião do Copom e em meio à definição de quem comandará a Fazenda no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O diagnóstico do economista

Em artigo publicado em setembro, Lara Resende argumentou que o desequilíbrio fiscal brasileiro decorre principalmente da alta taxa de juros da dívida, que, segundo ele, limita a capacidade de o governo investir e estimular o crescimento do PIB. A visão contrasta com a predominante na Faria Lima, segundo a qual o governo precisa cortar gastos primários — despesas que excluem o pagamento de juros — para equilibrar as contas públicas.

Com base na chamada Teoria Fiscal do Nível de Preços, o economista sustenta que o desemprego gerado por juros altos não reduz necessariamente a inflação e que taxas elevadas podem ampliar a dívida pública e alimentar a desconfiança sobre a capacidade de pagamento do governo. Segundo o SBT News, ele afirma que o saldo entre gastos e arrecadação está próximo do equilíbrio quando comparado ao de outros países, e que o rombo aparece ao se somar o pagamento de juros.

O cálculo apresentado é que o Brasil pagará cerca de R$ 1,4 trilhão somente em juros em 2026. Como mais da metade da dívida é composta por títulos atrelados à Selic, o montante cresce a cada elevação da taxa básica. Para Lara Resende, como o PIB cresce em ritmo menor que os juros, a dívida sobe de forma insustentável ano a ano.

Segundo a reportagem, a redução da Selic proposta pelo economista permitiria ao governo economizar cerca de 4% do PIB ao ano, ou mais de R$ 500 bilhões, no pagamento da dívida, com alívio imediato por causa do perfil de curto prazo do endividamento brasileiro.

Apoio no PT e rejeição na Fazenda

A ideia ganhou apoio de figuras influentes na cúpula petista, como Gleisi Hoffmann, cotada para voltar à Esplanada como ministra do Desenvolvimento Social, segundo o SBT News. O argumento é que a proposta permitiria ao governo manter benefícios sociais sem cortes ou aumento de impostos.

Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o plano está fora de cogitação. Internamente, a equipe econômica tenta conter a desconfiança de um mercado que, conforme a reportagem, teve sua pior semana pós-eleição desde a redemocratização, em 1989.

Endividamento e cobrança do mercado

De acordo com o SBT News, a dívida pública chegou a 82,9% do PIB em setembro, o equivalente a cerca de R$ 11,1 trilhões, o maior nível desde 2021, na pandemia. Diante da trajetória de alta, operadores cobram redução dos gastos primários — que incluem aposentadorias, salários do funcionalismo, Bolsa Família, SUS, educação e obras.

O entendimento no mercado é que um corte de gastos, ainda que menor do que o pretendido caso Flávio Bolsonaro (PL) tivesse sido eleito, sinalizaria compromisso com o equilíbrio fiscal e o controle da dívida, o que atrairia investimentos e daria segurança ao Banco Central para reduzir a Selic, hoje em 13,75%, sem fuga de capitais ou alta abrupta da inflação.

O temor do 'modelo turco'

Dois analistas ouvidos sob reserva pelo SBT News apontam que a proposta de Lara Resende pode falhar de modo semelhante ao que ocorreu na Turquia. Em 2021, o presidente turco Recep Erdogan forçou o Banco Central a cortar juros sob a tese de que taxas altas causavam inflação. Sob desconfiança generalizada, a lira desvalorizou mais de 130% e a inflação anual chegou a 85,5% em 2022. O governo turco recuou e elevou os juros para 50%.

Os analistas também argumentam que, se o governo fixar um teto para os juros abaixo da taxa exigida pelo mercado para cobrir o risco do país, credores tenderão a comprar dólares, investir no exterior ou gastar antes que o real perca valor. Outro ponto citado é a limitação das reservas internacionais como estratégia para conter fuga de capitais, com risco de queimar bilhões de dólares usados como proteção em crises.