As ações da Tenda (TEND3) lideravam as quedas do Ibovespa na manhã desta quinta-feira (11), após a divulgação do balanço do terceiro trimestre na noite da quarta-feira (10). Em relatórios publicados depois dos resultados, Itaú BBA, Safra e BTG Pactual apontaram dificuldades que, segundo as instituições, vão além do lucro abaixo das expectativas e podem comprometer a recuperação operacional da incorporadora nos próximos trimestres.

Crédito imobiliário mais restrito

Um dos pontos de atenção citados pelos bancos é o endurecimento das condições de financiamento habitacional, especialmente nas operações da Caixa Econômica Federal. Com critérios mais rigorosos para concessão de crédito, a Tenda passou a enfrentar um ambiente comercial mais desafiador, que exige ajustes nas condições de venda e pressiona a rentabilidade dos empreendimentos.

O mesmo movimento aparece no financiamento direto oferecido pela própria companhia. A Tenda reduziu a participação do crédito pro soluto pós-entrega — mecanismo pelo qual parte do pagamento dos imóveis é recebida após a entrega das unidades — de cerca de 10% para 7% do valor dos imóveis. Segundo o Safra, a restrição contribuiu para uma queda de 2,9 pontos percentuais na margem bruta das novas vendas, que chegou a 34,5% no terceiro trimestre.

Para o Itaú BBA, a pressão também resultou de descontos nos preços dos imóveis, sobretudo no Rio de Janeiro, onde o ambiente de financiamento mais restritivo exigiu condições comerciais menos favoráveis. O banco mencionou ainda mudanças no mix de produtos, cancelamentos e a ausência de economias extraordinárias de custos como fatores para a queda das margens.

Margens e risco de revisão de lucros

A deterioração da rentabilidade é uma preocupação comum aos três bancos. Na operação principal da Tenda, a margem bruta ajustada recuou de 39,9% no segundo trimestre para 34,6% no terceiro, queda de 5,3 pontos percentuais.

O Itaú BBA avalia que a companhia pode enfrentar revisões negativas nas estimativas de lucro para 2027. Em análise de sensibilidade, o banco calcula que uma redução da margem bruta dos empreendimentos em construção de 38,3% para cerca de 36% poderia provocar um corte de 10% a 15% nas projeções de lucro.

O Safra também considera provável uma revisão para baixo das estimativas, uma vez que o impacto da política mais restritiva de crédito pós-entrega foi mais intenso do que o antecipado. O banco chama atenção ainda para o aumento das despesas comerciais relacionadas aos cancelamentos e para o crescimento de 28% nas despesas gerais e administrativas em relação ao mesmo período do ano anterior.

O BTG Pactual avalia que parte das pressões sobre as margens e a velocidade de vendas deve persistir, o que torna a recuperação da companhia mais gradual. Entre os fatores apontados estão o maior peso de projetos das faixas 1 e 2 do Minha Casa, Minha Vida, os descontos comerciais e o aumento dos cancelamentos.

Carteira de recebíveis

O Safra destaca que a Tenda possui aproximadamente R$ 2,3 bilhões em créditos pós-entrega, equivalentes a cerca de 36% do total de recebíveis brutos da companhia. Na avaliação dos analistas, o aumento do endividamento das famílias e uma eventual deterioração da qualidade do crédito podem exigir provisões adicionais, pressionando os resultados futuros.

Segundo o relatório, a redução do crédito direto aos clientes representa uma tentativa de limitar a exposição da companhia ao risco de inadimplência, mas essa estratégia pode dificultar as vendas e reduzir as margens.

O desempenho da Alea, operação de casas industrializadas da Tenda, também é apontado como ponto de atenção pelo BTG. A divisão encerrou o trimestre com margem bruta ajustada de 5,5%.

Comunicação e preço-alvo

O BTG Pactual afirma que a comunicação pouco clara da Tenda sobre as dificuldades enfrentadas pela companhia tem prejudicado a confiança dos investidores.

Apesar das ressalvas, os três bancos mantêm avaliação positiva sobre o preço das ações. Itaú BBA e Safra preservam recomendação de compra. O Itaú BBA tem o maior preço-alvo entre as três instituições, de R$ 58, o que representa upside de 193,7% em relação ao fechamento de R$ 19,75 no último pregão. O Safra projeta R$ 46 por ação, com potencial de alta de 132,9%, enquanto o BTG Pactual estabelece preço-alvo de R$ 45, equivalente a valorização potencial de 127,8%.